Por Odoni Perin
Quando se trata de cinema, o maior problema é o uso dos padrões de Hollywood como referência para todo o resto da produção no mundo. Não é de se espantar que até muito pouco tempo o cinema brasileiro era rotulado de chato, ou mesmo mal feito. Não que o fosse, mas mesmo depois da retomada do cinema nacional, muito se produzia ainda do “cinema de sertão”, falsa identidade do cinema nacional e velha formula que sempre tentou cativar públicos externos explorando a aridez e a pobreza do país.Depois da retomada do cinema, no início da década de 90, surge mais um conceito, fazendo referência à Estética da Fome, criada por Glauber Rocha em 1965. O conceito da Cosmética da Fome foi trazido por Ivana Bentes para definir uma estética adotada para o retrato da pobreza. O estopim dessa discussão foi o competente filme “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles. A competência desse filme se justifica simplesmente pela capacidade de aliar os apelos comerciais com uma narrativa de personalidade forte. Porém, o conceito da Cosmética da Fome vem trazer uma discussão ética sobre essas linguagens. “O que se pretende filmando desse jeito?” seria a pergunta para esta estética.
Embora tenha causado tamanha discussão, o filme não chegou a estabelecer uma regra ou criar um movimento – como foi o Cinema Novo – para a produção nacional. O que viria depois seria provavelmente relacionado a ele e, consequentemente, tachado como uma tentativa de cópia.
Em meio a todas essas discussões éticas, “Cidade de Deus” foi, certamente, um marco para o cinema brasileiro. Indicado ao Oscar, levou Meirelles a voar mais alto, mas também mostrou para o próprio público brasileiro que o cinema nacional não é chato, muito menos mal feito.
O cinema brasileiro ganhou diversidade. Esse mesmo cenário é dividido por cineastas de características muito diferentes, onde se destacam o próprio Meirelles, passando por Jorge Furtado, Cláudio Assis, os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, entre tantos outros.
Nesse contexto, cabe a reflexão de que a televisão tem interferência nesse meio. A cineasta Suzana Amaral define como uma certa desordem este espaço de convivência de diferentes linguagens. Embora possa agradar os diferentes públicos, “só temos é que ficar atentos para ver até que ponto a publicidade e a televisão, que tanto influenciam a produção brasileira dos anos 90, não estão diluindo a linguagem cinematográfica e tirando do público a possibilidade de reflexão.” – disse à Revista de Cinema.
De fato, muitos dos cineastas brasileiros também produzem publicidade, escrevem para televisão, e há também aqueles que antes só faziam novelas e agora se arriscam no cinema. Nesse terceiro caso, é visível a diferença das linguagens e dos próprios conteúdos dos filmes, em relação aos demais. Em especial quando se trata de emissoras de TV que passaram a produzir filmes, com seus próprios atores e diretores (alguns “adaptados” para o cinema), o Brasil já está se dando o luxo de produzir blockbusters, normalmente derivações de programas e séries de TV, e que logo passarão na Sessão da Tarde. Um exemplo recente é o filme “Se eu Fosse Você” (2006), dirigido por Daniel Filho, onde os personagens vividos por Toni Ramos e Glória Pires trocam de corpos misteriosamente. Bom, o resto a gente já sabe…
Será que ainda dá pra contar nos dedos quantos filmes desses já foram produzidos por Hollywood? Entre trocas de pai e filho, mãe e filha, marido e mulher, cachorro e papagaio, já foram experimentadas todas as variações para essa mesma história. Que necessidade haveria em reproduzir mais uma vez isso, agora no Brasil, se não por uma tentativa de se igualar ao pior do cinema norte-americano? O fato é que esse cinema vende mais, tem divulgação na TV, figuras conhecidas do público. Em resumo, sempre será feito.
O cineasta Jorge Furtado defende que o cinema brasileiro é, em geral, muito mais inteligente do que o norte-americano. O que não é mentira, a considerar a grande produção de Hollywood e seu percentual de produção não estritamente comercial. O problema é que o cinema nacional pode passar justamente pela mesma bipolarização da produção. O capital e o interesse comercial vai demandar a produção de material para ser simplesmente consumido, enquanto uma outra corrente vai se restringir aos circuitos independentes e continuar na desconfotável categoria do “baixo orçamento”.
O cinema também pode ter como objetivo o entretenimento. Não é errado. Nem todo filme deve ter algum tipo de denúncia, ou mesmo uma função social. Como o próprio Jorge Furtado afirma, em entrevista à Época, “Uma das funções da arte, em um mundo abarrotado de utilidades, é ser inútil”. No entanto, quando se trata de cinema nacional, onde quase toda a produção é financiada com verba pública, esse conceito pode e deve ser discutido. Mesmo que o filme não seja engajado politicamente ou que possa propor reflexões sobre a sociedade, deve ser tratado com um bem cultural, e não como um mero produto descartável a ser consumido. Caso contrário, não poderíamos ter filmes adaptados de livros, contos e poesias.
O lado bom é que, mesmo que aos poucos, o brasileiro está começando a prestigiar o cinema nacional, que por sua vez, está ganhando coragem e um pouco mais de espaço no cenário internacional também. O próprio “Cidade de Deus”, ou mais recentemente, “Tropa de Elite”, têm levado a bandeira do cinema brasileiro a públicos maiores, o que aumenta o respaldo e a visibilidade da produção nacional e poderá impulsionar a indústria cinematográfica no Brasil.
Odoni Perin é jornalista. Editor de Jornalismo da TV Unochapecó.