A censura como defesa de interesses
A música, longe de ser simples manifestação artística, é, inclusive, intermediária nas lutas entre interesses de classes na sociedade brasileira. Durante sua progressão histórica, foi usada como instrumento ideológico tanto para afirmar uma suposta ordem incontestável vigente, como também para combatê-la, contestá-la.
Durante o período colonial, na América recém descoberta pelos povos europeus, podemos perceber claramente a atuação ideológica das manifestações musicais. Os padres jesuítas, encarregados de catequizar os nativos, trataram logo de reprimir-lhes as manifestações estranhas ao ouvido Europeu – consideradas como manifestações demoníacas, justamente pelo caráter estranho e tenso, e ensinar-lhes a executar instrumentos, formas e técnicas européias de musicalização. Desta forma, catequizar, ou propagar o cristianismo, foi o início do processo de aculturamento do povo nativo ao europeu. As características da música indígena foram censuradas de tal forma que hoje são quase inexpressivas na música nacional.
Um pouco mais tarde, com as formações de latifúndios que abrigavam os engenhos de açúcar e grandes plantações de café, um outro tipo de cultura vem a misturar-se com aquele que aqui estava se originando. É o negro africano, que chega para servir de mão-de-obra escrava, e, obviamente, traz consigo toda uma cultura, manifestada, inclusive, em forma de música. Os ritmos africanos, por provocarem uma sensação de êxtase e sensualidade, foram logos submetidos ao crivo da censura cristã européia. O lundu, por exemplo, foi tido como manifestação demoníaca, numa tentativa clara do europeu em defender a ordem sócio-cultural vigente, que era a ordem que tinha implantado e que lhe interessava. Mesmo assim, a censura com justificativas religiosas não conseguiu impedir que os ritmos africanos influenciassem a construção dos ritmos futuramente tidos como tipicamente brasileiros (e esta influência pode ser percebida ainda hoje no samba, samba de Breque, etc…)
No século XX, a ditadura militar atua através da censura política, usando todo o aparelho estatal para reprimir manifestações de revolta popular contra o regime estabelecido. Neste sentido, um estado autoritário, ufanista e excessivamente centralizado, controlava os aparatos da indústria de propagação de obras culturais, “cortando o mal pela raiz”, seja riscando faixas “inadequadas” nos discos, exilando artistas opositores, e, em casos mais drásticos, apelando inclusive para a tortura e à morte.
Ainda hoje, superado o governo ditatorial, podemos perceber a ascensão de outro tipo de prática que não deixa de ser uma censura. É a censura através de mecanismos econômico-financeiros, que já tinha surgido junto com o rádio e que vinha paralelamente a censura do estado autoritário, no qual os músicos em evidência geralmente são escolhidos pela indústria cultural por não provocarem nenhum abalo na ordem estabelecida, que é a ordem da burguesia industrial e comercial, do grande capital, da economia de mercado, do qual a tal indústria cultural faz parte e é um mecanismo importante. Além disso, essa indústria atua como uma ferramenta de neocolonialismo cultural, pois atua no sentido de destrinchar produções feitas nos países desenvolvidos que, além de ser consumidas em suas terras de origem, devem ser consumidas no mundo subdesenvolvido. Assim, explica-se o excesso de material estrangeiro que é veiculado diariamente nas rádios de maior audiência do país.